O processo bilionário que pode mudar o mercado de games
Imagine acordar um dia e descobrir que, sem fazer nada, você já é parte de uma ação judicial de quase um bilhão de dólares. É exatamente isso que está acontecendo com cerca de 14 milhões de jogadores britânicos da Steam. Em 4 de junho de 2024, foi protocolada no Competition Appeal Tribunal (CAT) de Londres uma ação coletiva no valor de £656 milhões, aproximadamente US$ 899 milhões, contra a Valve Corporation, criadora da plataforma Steam.
O caso foi certificado pelo tribunal em 26 de janeiro de 2026, o que significa que a ação não foi descartada e segue avançando em direção ao julgamento de mérito. Todo usuário britânico que comprou jogos na Steam entre junho de 2018 e junho de 2024 é automaticamente incluído, a menos que opte por sair voluntariamente até 11 de junho de 2026.
Quem lidera o processo: Vicky Shotbolt e a Parent Zone
A representante legal da ação é Vicky Shotbolt, fundadora e CEO da Parent Zone, organização britânica que trabalha com famílias e empresas globais para melhorar a vida de crianças no ambiente digital. A Shotbolt colabora com mais de 19.000 escolas no Reino Unido, tem parcerias com todas as autoridades policiais do país e já assessorou empresas como Microsoft e Vodafone.
A representação legal está a cargo do escritório Milberg London LLP, com financiamento de litigação assegurado pela Bench Walk Advisors. O nome oficial do processo é Vicki Shotbolt Class Representative Limited v Valve Corporation, caso núm. 1640/7/7/24 no CAT.
A acusação principal: comissão excessiva e paridade de preços
A ação se concentra em dois pontos centrais:
1. Comissão de 30%
A Steam cobra 30% de cada venda realizada na plataforma, jogos, DLCs, conteúdo adição. Esse percentual práticamente não muda desde os primeiros anos de operação da plataforma, mesmo com a Steam controlando entre 80% e 90% do mercado de distribuição digital de jogos para PC.
Para efeito de comparação, a Epic Games Store cobra apenas 12%. O economista Zachary Schwartz, contratado pela parte autora, calculou que, em um mercado verdadeiramente competitivo, a comissão da Steam deveria ser de aproximadamente 17–18%. O sobrecobro acumulado desde 2018 supera US$ 3,1 bilhões só para as desenvolvedoras.
2. Obrigações de paridade de preços (PPOs)
As Price Parity Obligations são cláusulas contratuais que a Valve impõe: nenhum desenvolvedor pode vender seu jogo mais barato em outra plataforma do que na Steam. Isso inclui DLCs, acesso antecipado e Steam Keys vendidas por terceiros.
Na prática, se um jogo custa R$ 100 na Steam, não pode custar R$ 70 na Epic Games Store ou na GOG. O argumento da ação é que essas regras eliminam a concorrência de preços entre plataformas e forçam os consumidores a pagar mais, já que os desenvolvedores precisam embutir a comissão de 30% no preço de todas as plataformas.
A defesa da Valve: Steam é escolha, não imposição
A Valve tentou barrar a ação antes mesmo de ela chegar ao mérito, argumentando que havia evidências insuficientes e problemas metodológicos no cálculo dos danos. O Competition Appeal Tribunal rejeitou todos os argumentos da Valve em janeiro de 2026 e certificou o caso para prosseguir.
A defesa informal, ecoada por boa parte da comunidade gamer, é que a Steam não é um monopólio coercitivo. Os jogadores escolhem a plataforma voluntariamente por causa da qualidade superior do serviço: Steam Deck, suporte técnico robusto, Workshop de mods, backups na nuvem, Remote Play Together, e uma comunidade de dezenas de milhões de usuários. A Epic Games Store existe como alternativa há anos e ainda não conseguiu capturar sequer 10% do mercado.
Uma pesquisa da Windows Central com 690 leitores revelou que 84% dos gamers não apoiam a ação. Há, inclusive, uma petição no Change.org incentivando usuários a optarem por sair (opt-out) do processo.
Precedentes: Apple e Google já passaram por isso
O processo contra a Valve não veio do nada. Ele se inspira em dois casos recentes que sacudiram o mercado de plataformas digitais:
Epic v. Apple: A Epic processou a Apple alegando que a App Store é um monopólio com comissão abusiva de 30%, exatamente o mesmo percentual da Steam. Embora um juiz tenha determinado que a Apple “não é monopolista”, o caso gerou debate global sobre o modelo de plataforma fechada.
Epic v. Google: Em dezembro de 2023, um júri determinou que a Google violou a lei antitruste ao manter seu monopólio na distribuição de aplicativos Android. Em março de 2026, Google e Epic chegaram a um acordo que obriga a reestruturação de práticas na Play Store.
Advogados observam que os argumentos nesses casos descrevem práticas praticamente idênticas às da Steam, e que a Valve controla uma fatia proporcional de seu mercado muito maior do que Apple ou Google nos seus respectivos segmentos.
O que acontece se a Valve perder?
As consequências poderiam ser profundas e duradouras para toda a indústria:
Fragmentação do ecossistema: Sem as PPOs, grandes editoras teriam incentivo para retirar jogos da Steam e lançar exclusivos em outras plataformas para extrair melhores condições. O jogador que hoje tem tudo em um lugar passária a gerenciar múltiplos launchers.
Impacto na inovação: Com comissões reduzidas de 30% para algo próximo de 17%, a Valve teria menos receita para investir em infraestrutura, Steam Deck, desenvolvimento de jogos próprios e suporte a desenvolvedores independentes.
Precedente jurídico global: Uma vitória no CAT britânico abriria precedente para ações similares em outros países. Outras plataformas, consoles, mobile, também poderiam ser alvo.
Para desenvolvedores indie: A redução de comissão e a flexibilização das PPOs seria positiva para estudiôs independentes, que poderiam precificar jogos de forma diferente em cada plataforma e reter mais receita por venda.
Quanto cada jogador britânico pode receber?
As estimativas indicam compensação individual entre £22 e £44 por usuário elegível, dependendo do volume de compras realizadas no período. A conta é simples: £656 milhões ÷ 14 milhões de usuários = cerca de £47 per capita. Usuários que compraram mais jogos receberiam proporcionalmente mais.
Para os jogadores de fora do Reino Unido, o processo não se aplica diretamente, mas um precedente favorável certamente encorajária ações similares em outros países, incluindo o Brasil.
O que vem a seguir
Com a certificação concluída, o caso entrará na fase de discovery (coleta e apresentação de evidências pelas duas partes). O julgamento de mérito deve ocorrer em 2026 ou 2027. Qualquer decisão poderá ser contestada via recurso, prolongando o processo por mais anos.
Enquanto isso, a Valve enfrenta simultaneamente outras batalhas jurídicas: ações sobre loot boxes nos EUA, questões de licença musical com a PRS, e um processo de patent troll que a empresa venceu em fevereiro de 2026. A empresa mais valiosa de games do mundo que nunca abriu capital nunca esteve sob tanto escrutinio judicial.
O desfecho desse processo vai muito além do dinheiro. Ele responde a uma pergunta que o mercado digital enfrenta há uma década: quando uma plataforma dominante vira monopólio abusivo?
Cobertura em Vídeo, Valve vs Reino Unido
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O que a comunidade diz
⭐ Avaliações — comunidade gamer
A Steam domina o mercado há mais de 20 anos. Era só uma questão de tempo até virar alvo de regulação antitruste. O caso do Reino Unido pode mudar tudo.
Entendo o argumento antitruste, mas a Steam foi construída com qualidade ao longo de décadas. Não é monopolio forçado, é preferência do usuário.
Se a Valve perder esse processo, pode abrir precedente para casos similares na Europa e EUA. O mercado de games nunca mais seria o mesmo.
Infográficos, Valve Steam
Infográfico Valve Steam, destaque 2
Infográfico Valve Steam, destaque 3
Infográfico Valve Steam, destaque 4